Já faz muitos anos, trabalhava em um ambulatório público e recebi um rapaz de 18 anos. Uma grande coincidência. Por muito tempo tive intensa convivência com pessoas de diversas idades através de ligações pessoais e familiares, que tinham passado por dificuldades na escola, não acompanhavam as aulas, eram inquietos. Eles se pareciam com o rapaz que atendi naquele dia.
Como familiar e médica, desde que os conheci, evidentemente me interessei por eles. Mas, tanto eu quanto muitos outros demoramos para saber que tinham a Síndrome do X frágil. Pouco depois de eu tomar conhecimento dessa síndrome, vejo o tal rapaz desconhecido de 18 anos. O pai se apresenta primeiro e, em seguida, Fernando - este era seu nome - entra com a cabeça baixa. O pai lhe diz para me cumprimentar. Fernando estica o braço em minha direção e, ao mesmo tempo, vira o rosto para trás. Não queria me olhar. Ou não poderia. Talvez por enquanto.
Essa mirada me impressionou mesmo estando habituada a ver tantos outros, esses outros que se escondiam de olhares diretos. E assim conheci o primeiro paciente com a síndrome. Fiz algumas perguntas ao pai de Fernando: quando sentou? – 9 meses - ; quando andou ?– 1 ano e 4 meses – ; falou ?– com mais de 2 anos, perguntas e respostas semelhantes que iria escutar adiante, quase como uma repetição. Encaminhei para o exame, o resultado foi positivo.
Assim entrei nesse universo. Um jornal publicou uma matéria sobre a Síndrome do X frágil onde dizia a respeito da síndrome e dos exames diagnósticos que poderiam fazer. Isto foi pouco antes de eu conhecer Fernando e seu pai. Apoiada por pediatra, geneticista, psicopedagogos pude, junto com outros, abrir várias portas. Dos congressos, da permissão de falar alto sabendo em parte do que se trata, tendo então um diagnóstico específico para meninos, meninas, adolescentes que têm incômodo ao olhar, aos barulhos fortes, o andar que se atrasa, as palavras que demoram. Ter saber o diagnóstico dá contornos, produzindo identidade. Finalmente ganham um nome, algo que dá uma conformação para limites e possibilidades.
Há mais de doze anos comecei a atender essas pessoas e seus familiares com a síndrome. Nesse período aprendi muito, ouvi muitas histórias, vividas por mim e por outros. Percebi que essas histórias e personagens poderiam auxiliar as pessoas com a síndrome e suas famílias. Assim, resolvi trazer aqui partes do que acompanhei nesse período, vividas por mim e relatadas por outros, com o objetivo de compreender a síndrome, obter conquistas e soluções para os impasses que se apresentam.
Notas: 1) Os nomes dos personagens serão sempre fictícios.
2) Uma das características mais frequente nas pessoas com a SXF é o rechaço ao olhar direto de pessoas descohecidas; após o relacionamento amigável esse rechaço geralmente desaparece.