Gilberto tem 19 anos. O meu consultório do ambulatório fica no 2º. andar, tendo uma escada. Gilberto subiu com a mãe, eu estava lá em cima, olhando-o subir. Percebi que Gilberto estava se apoiando no braço da mãe para subir a escada. Eu, lá em cima, disse com um jeito de brincadeira: “Você precisa se segurar na sua mãe? Não é possível!” Ele logo se soltou da mãe, deu um risinho e continuou subindo sem se apoiar, quando então vejo Clara, a mãe, indo segurar o braço dele para ajudá-lo a subir, o que evidentemente era desnecessário.
Conversamos com Clara e Gilberto em vários atendimentos e pouco a pouco as coisas foram se modificando. A família mora em uma cidade de praia e os pais têm um bar na beira do mar.
Os pais sugeriram a Gilberto ajudar os clientes do bar. Ele aceitou e passou a levar e trazer os pratos e copos. Os clientes davam gorjetas, o que deixou Gilberto muito contente.
Gostou por conseguir aprender e também por ter contato com as pessoas que via conversando no bar e com ele. Ultimamente não tenho visto Gilberto precisando se segurar na mãe para subir a escada. Além disso, está começando a pedalar com a bicicleta que ganhou, justamente algo que necessita equilíbrio.
A mãe de Gilberto tem um sentimento de fragilidade bastante intenso diante do filho. É algo muito comum. As mãe querem muitas vezes ajudar e apoiar mas não percebem muitas capacidades do filho com a SXF. A mãe suficientemente boa (conceito de Winnicott) atua com o filho cuidando, brincando, estando com ele, mas ela não faz tudo que é solicitada. Isto é necessário para o filho se desenvolver.
Quando a mãe estimula o filho, está fazendo com que ele conheça um pouco de si, dos outros e do mundo.
*Os nomes neste caso são fictícios.