sábado, 27 de outubro de 2012

Abrindo portas

Já faz muitos anos,  trabalhava em um ambulatório público e recebi um rapaz de 18 anos. Uma grande coincidência. Por muito tempo tive intensa convivência com pessoas de diversas idades através de ligações pessoais e familiares, que tinham passado por dificuldades na escola,  não acompanhavam as aulas, eram inquietos. Eles se  pareciam com o rapaz que atendi naquele dia.

Como familiar e médica, desde que os conheci,  evidentemente  me interessei por eles. Mas, tanto eu quanto muitos outros demoramos para saber que  tinham a Síndrome do X frágil. Pouco depois de eu tomar conhecimento  dessa síndrome, vejo o tal rapaz desconhecido de  18 anos. O pai se apresenta primeiro e, em seguida,  Fernando - este era seu nome -  entra com a cabeça baixa. O pai lhe diz para me cumprimentar. Fernando estica o braço em minha direção e, ao mesmo tempo, vira o rosto para trás. Não queria me olhar. Ou não poderia. Talvez por enquanto.

Essa mirada me impressionou mesmo estando habituada a ver  tantos outros, esses outros que se escondiam de olhares diretos. E assim conheci o primeiro paciente com a síndrome. Fiz algumas perguntas ao pai de Fernando: quando sentou? – 9 meses - ; quando andou ?– 1 ano e 4 meses – ;  falou ?– com mais de 2 anos, perguntas e respostas semelhantes que iria escutar adiante, quase como uma repetição. Encaminhei para o exame, o resultado foi positivo.

Assim entrei nesse universo. Um  jornal publicou uma matéria sobre a Síndrome do X frágil onde dizia a respeito da síndrome e dos exames diagnósticos que poderiam fazer. Isto foi pouco antes de  eu conhecer Fernando e seu pai. Apoiada por pediatra, geneticista, psicopedagogos  pude, junto com outros, abrir  várias portas. Dos  congressos, da permissão de falar alto sabendo em parte do que se trata, tendo então  um diagnóstico específico para  meninos, meninas, adolescentes que têm incômodo ao olhar, aos barulhos fortes, o andar que se atrasa, as palavras que  demoram. Ter saber o diagnóstico dá contornos, produzindo identidade. Finalmente ganham um nome, algo que dá uma conformação para  limites e possibilidades.

Há mais de doze anos comecei a atender essas pessoas e seus  familiares com a síndrome. Nesse período aprendi muito, ouvi muitas histórias, vividas por mim e por outros. Percebi que essas histórias e personagens  poderiam auxiliar as pessoas com a síndrome e suas famílias. Assim, resolvi trazer aqui partes do que acompanhei  nesse período, vividas por mim e relatadas por outros,  com o objetivo de compreender a síndrome, obter conquistas  e soluções para os impasses que se apresentam. 

Notas: 1) Os  nomes dos personagens serão sempre  fictícios.
            2) Uma das características mais frequente nas pessoas com a SXF é o rechaço ao olhar direto de pessoas descohecidas; após o relacionamento amigável  esse rechaço geralmente desaparece.

2 comentários:

  1. Um grande bem haja pelo seu trabalho.

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  2. Oi, Ruth

    Acompanho a sua trajetória há alguns anos e agora vejo como você cresceu, entendeu, estudou e, assim, pode ajudar tantas pessoas que têm na família casos do SXF. Parabéns pela coragem, sensibilidade e ótimo texto. Grande beijo
    Rose Esquenazi

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