Eliana conta sua história e de Antonio
Domingo, Rio de Janeiro, dia ensolarado, muitas pistas da orla fechadas para as pessoas caminharem. Saímos de manhã, eu e Antonio, ainda com um vento leve e fomos andando na pista da Vieira Souto para prosseguir na direção da Delfim Moreira. Queríamos (eu certamente) passear por esses lugares bonitos, o Rio, Ipanema, Leblon. Ainda era cedo quando chegamos, foi fácil estacionar o carro na própria praia. Com o sol e a brisa íamos andando até que em um momento não vi mais meu filho. Olhava para lá, olhava para cá. Nada.
Fiquei em pânico. A sensação é muito estranha, uma espécie de nuvem que impede ver qualquer coisa, sem saber para onde ir, o que fazer sem ter ninguém para ajudar. Pensei no salvavida, não encontrei.
Um casal muito amistoso se dispôs a me ajudar, disseram que iriam procurar. Falei que ele é alto, tem quinze anos, estava com uma bermuda preta, uma camiseta branca, que não eram um grande destaque. Dei o número do meu celular se houvesse notícia.
Mesmo com o apoio continuava desesperada. Queria gritar, talvez para fazer qualquer coisa possível. Uns minutos depois, andando para lá e para cá , dando voltas nos trajetos e na cabeça, vi um amigo que conhecia Antonio e pedi para procurar também. Tentou mesmo me ajudar, também não adiantou. Ligou pelo telefone um tempo depois dizendo que não havia encontrado.
Continuei andando um pouco no sentido do Leblon e depois voltando para Ipanema, até que tive uma idéia, procurar no carro. Como se fosse a última chance, fui para o lugar do estacionamento, descrente mas pelo menos tendo algo diferente que me desse uma esperança. Não foi fácil, a agonia não permitia pensar com calma também para encontrar o carro. Sabia que estava longe, meu coração continuava batendo muito forte, as pernas meio bambas, queria correr, voar, não conseguia.
Finalmente encontrei o carro e quando cheguei, ali estava: Henrique, tranquilo, encostado no carro com braços cruzados, me esperando.
Fiquei perplexa. E aliviada.
Passados a angústia e o alívio, comecei a pensar. Na verdade, fiquei muito impressionada por ele ter tido a iniciativa, muito mais rápida do que eu. Além disso, as dificuldades existentes fazem com que não se observe capacidades inesperadas. O interessante foi descobrir saber muito mais do que eu pensava e verificar que Antonio pode se orientar, o que abre literalmente mais caminhos.
Nota: 1) Os nomes dos personagens são fictícios.
2) Uma das características da maioria das pessoas com a síndrome é uma atenção diante de referências: gostam de relógios, calendários, agendas e, principalmente, os trajetos das ruas por onde andam.
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