Clara conta a viagem com Henrique:
Esta foi a primeira viagem sem o pai; o casamento acabou e ficamos nós dois. Já havia passado uns seis meses, sabia que seria realmente diferente. Mas pensamos que podia ser uma boa viagem, Henrique estava animado. Sempre adorou viajar, ver novas cidades. Havia uma esperança de podermos ter momentos agradáveis, mesmo assim, e recuperar momentos bons.
Era uma excursão de ônibus, foi assim que escolhi, não teria preocupação com os trajetos, não tínhamos que procurar lugares para se hospedar e fazer refeições. Ficava mais fácil, menos coisas para fazer.
Na entrada, como sempre nessas excursões de ônibus, a guia começou a chamar na entrada do ônibus, cada um se apresentando. O microfone passava de mão em mão e ele dava um jeito de evitar.
Ficava diante de um impasse, embora gostasse de falar de microfone. Envergonhado, ia deixando passar os outros. No fim, se apresentou, falou seu nome, disse que era botafoguense, que está gostando da viagem e foi quase correndo para se sentar.
O primeiro dia foi ótimo, lugares bonitos, nenhum problema. Chegamos ao hotel. No outro dia, tomamos o café e seguimos a viagem . Um pouco antes de sairmos, Henrique me pediu para consertar o relógio. Não consegui consertar,não sabia como fazer para o relógio funcionar, justamente com o relógio que é tão importante para ele. Disse-lhe que ia procurar um lugar para consertar. Ele foi ficando agoniado. E quando isso acontece, eu começo a ficar também aflita, imaginando que a coisa vai piorar por não saber o que fazer. Percebi como fazia falta a presença do pai. Tentei acalmá-lo sozinha. Ficou um pouco melhor, descansamos por um período. Um tempo depois começou a me pedir para ver o relógio. Fiquei novamente com medo. Novamente outra trégua. Até que chegamos ao hotel onde iríamos comer. Henrique saiu correndo, irritado, talvez por causa do relógio e disparando para entrar no refeitório longe de mim. Fui atrás e lá estava ele com um prato já bem cheio de arroz e batata frita. Tentei dizer que tinha batata demais e que devia colocar outras coisas, uma carne. O vaso transbordou:, começou a gritar, pegou meu cabelo e começou a me puxar. Todas as pessoas da excursão ficaram paralisados.
Em certo momento, depois de alguns segundos, um senhor que estava na excursão foi em direção a Henrique e interveio, começando a falar com ele, com o dedo diante dele. E falou alto: “Você não pode fazer isso! Ela é sua mãe. Você não pode fazer isso!”
Henrique largou imediatamente o meu cabelo e foi correndo, saindo para um lugar qualquer, tentando se esconder. Foi parar em um banheiro e ficou fechado lá dentro. Percebi que queria se recompor. Um pouco depois fui falar com ele, disse para ficar onde quisesse, procurasse um lugar com uma televisão até se sentir melhor e que iria daí um pouco fazer um prato para ele. Depois encontrei uma pequena sala para ele se tranqüilizar e comer.
Voltei para o restaurante e vi pessoas comentando. Conversei e agradeci o senhor que colocou o Henrique na linha, mas ao mesmo tempo ouvi um outro, dizendo que esse menino deveria estar em um manicômio, tomando remédios, não na excursão. Dirigi-me a ele e disse que não é bem assim. Às vezes as coisas não são como queremos. Quase disse a ele que já deve ter passado por algo parecido. Mas só disse que não era nada disso. Que, em vez de ele tomar remédio, talvez fosse melhor se eu tivesse tomado uma caipirinha. Provavelmente tudo isso não teria acontecido. E fui embora.
A viagem continuou, Henrique ficou tranqüilo, não falou mais sobre o relógio, estávamos mais calmos, eu e ele. Ficamos bem e fomos em frente.
No dia seguinte, houve nova brincadeira de microfone. E Henrique quis falar. Pegou o microfone e começou:
“Estou gostando muito dessa viagem, gostei de vocês, tudo muito bonito, desculpem o que fiz ontem e quero fazer outras viagens assim”.
Muitos aplaudiram.
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